domingo, 27 de dezembro de 2015

Nova economia, novos valores e crenças.

"Os desajustados podem reinventar a economia"


ESCRITO POR LETÍCIA NAÍSA







Há pelo menos três anos a antropóloga americana Alexa Clay, 31, observa o comportamento da economia informal – e algumas vezes ilegal – no sistema capitalista. O resultado da sua subversiva pesquisa está no recém-lançado livro A Economia dos Desajustados: Alternativas Informais para um Mundo em Crise, da editora Figurati, escrito em parceria com a colega especialista em inovação social Kyra Maya Phillips. Estão lá, entre dezenas de casos, relatos sobre a organização financeira dos piratas da Somália e de hackers franceses que usam rotas de túneis subterrâneos para invadir museus e restaurar obras de arte negligenciadas pelo governo.

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Para a autora, o capitalismo está em crise e exige criatividade. Os desajustados, como ela classifica na obra, são aqueles que não têm medo de questionar e reinventar a organização econômica vigente. Muitos dos exemplos de sucesso do nosso tempo, afirma, foram, antes, pessoas que buscaram meios alternativos para sobreviver. Steve Jobs, diz, talvez seja o maior exemplo de desajustado que deu certo. "O espírito alternativo e renegado que ele encorajou na Apple desde o início, quando a indústria da informática era dominada por engravatados, foi representado num infame comercial que celebrava ninguém menos que os desajustados”, escreve a autora no livro.

Apesar de compilar exemplos de sucesso à margem do sistema capitalista, ela alerta que o sentido da sua pesquisa não é fomentar esse tipo de trajetória, e sim mostrar como o espírito inovador, empreendedor e a tecnologia podem se aliar para criar novas formas de organização social e econômica. “O questionamento de como sair do sistema tradicional e como criar algo sustentável financeiramente para nós vivermos de forma alternativa são saídas úteis a curto prazo que as pessoas podem ter para lidar com a crise”, disse ao Motherboard.

Alexa esteve em São Paulo e conversou com a gente sobre a formação de um novo sistema econômico muito baseado no bom e velho “jeitinho”, que é atribuído a nós, brasileiros, mas que está muito presente no empreendedorismo como um todo.

 Crédito: Guilherme Santana/ VICE

MOTHERBOARD: Qual é a história por trás do seu livro?

Alexa Clay: Acho que, no fundo, é uma certa frustração com a importância que o cenário do empreendedorismo dá a si mesmo. Especificamente no caso de empreendedores do Vale do Silício, com o Mark Zuckerberg e onde todo mundo estava venerando o Steve Jobs, como se ele fosse algum deus. Então foi meio uma piada dizer “vamos ver outros tipos de empreendedorismo na economia informal, na economia do mercado negro” e aí ficou um lance sério. Comecei a fazer toda essa pesquisa e falei “uau, puta merda, essas pessoas são incríveis”. Elas têm tanta criatividade, sabe, o que nós podemos aprender com alguns desses diferentes grupos que não são estudados e conhecidos?

"A gente não foi parte do processo de construção das instituições capitalistas que existem hoje, que não são humanas. Estamos nos rebelando contra isso."

A economia dos desajustados sempre existiu ou é um fenômeno da modernidade?

Um pouco dos dois. Certamente sempre existiram histórias incríveis desses tipos de Robin Hoods, de figuras fora-da-lei, excluídos. Estudei muito de história da economia, então foi fascinante aprender sobre piratas, por exemplo, e como eles costumavam criar constituições democráticas para governar seus navios. E também como no século XVIII os EUA foram construídos por roubo de patentes. Os americanos roubaram patentes de países europeus ocidentais e trouxeram para os EUA para comercializar. Totalmente ilegal. E esse foi o modo como os EUA se industrializaram. Então é um pouco irônico que agora os EUA estejam dando lição de moral na China, no Brasil, na Índia, países que têm uma flexibilidade de patente maior. Mas, sim, a história do capitalismo é também a história da economia underground. Antes do McDonald’s virar uma franquia a cada esquina, existia a máfia que fazia franquias, as gangues que usam esses tipos de métodos de organização. Então eu acho que as economias à sombra acontecem em momentos de transição da economia. Já vimos isso antes, o crescimento da economia informal, especialmente no sul da Europa, após a crise financeira. Mais e mais pessoas também sentem que não querem trabalhar em instituições tradicionais. Então estão tentando ser mais proativos.

É algo da geração millenial?

Sim, porque acho que a gente não foi parte do processo de construção das instituições capitalistas que existem hoje, que não são humanas. Estamos nos rebelando contra isso. Faz parte de uma abordagem geracional. Somos uma geração de muitas coisas, eu mesma sou escritora, estrategista, professora. Você usa a máscara que você precisa para cada situação.

Existe uma estimativa do quanto essa economia move de dinheiro?

Sim, são 10 trilhões de dólares. É muita coisa. Seria uma economia abaixo dos EUA, se você agregasse todo o mundo. Em alguns países, é mais. 60% a 70% da economia do Quênia é informal, por exemplo.

A economia dos desajustados está sempre ligada a questões ilegais?

Não. Entrevistamos muita gente interessada em economia alternativa. Grupos hackers, por exemplo. Às vezes é um mercado cinzento; você tem algumas atividades sendo desenvolvidas, mas que as pessoas não sabem exatamente como é a legislação em torno das coisas. Mas tem um cara, por exemplo, que é um ladrão de bancos famoso na Espanha, ele tomou empréstimos de meio milhão de euros e nunca pagou de volta e deu o dinheiro para grupos de ativistas. Agora é alguém que está construindo sua própria moeda.

Mas essa economia está sempre ligada às atividades informais?

Sim, na maioria das vezes. Existem histórias de pessoas nessa linha, como os amish criadores de camelos, que precisam conseguir regulamentar o negócio deles. Mas também tem essas pessoas de identidade de desajustados no sistema. São pessoas que estão tentando transformar a cultura de negócios grandes. Uma das histórias é desse cara que tentou encontrar um novo jeito de tratar a violência pelo mundo. Não são atividades ilegais, mas são rejeitadas por pessoas que são muito conservadoras, ortodoxas, porque são coisas novas, que rompem. O que estamos tentando fazer é recriar esse cenário de inovadores underground que estão no mercado negro; os inovadores de dentro, que lutam contra o sistema por dentro; tem os artistas e boêmios, que caem fora do sistema; e as pessoas que são ativistas, que estão numa situação antagônica ao sistema. São esses quatro tipos de personalidades que observamos.

Você diz no livro que o Steve Jobs é um desajustado. Por quê?

Acho que ele tem um DNA desajustado. Acho que essa ideia de que todo mundo deveria viver o roteiro da vida do Steve Jobs é horrível. Ele era uma pessoa horrível em muitos aspectos. Mas, sim, ele tinha essa personalidade oprimida, ele costumava entrevistar as pessoas para vaga de emprego e perguntar se elas usavam LSD, por exemplo, para julgar a criatividade delas. Acho que o problema com o Steve Jobs é que, quando você tem esse espírito de desajustado, todo mundo tenta fazer o mesmo que você fez. A ideia não é mostrar essas histórias e incentivar todo mundo a imitar essas histórias. As pessoas precisam descobrir o que funciona para elas.




Crédito: Guilherme Santana/ VICE

Achei interessante você colocar o Steve Jobs dessa forma porque ele é um dos maiores símbolos de sucesso do capitalismo...

Exatamente. O Richard Branson também. Ele começou trabalhando com bandas punk underground e aí ele virou esse grande capitalista. Esse é parte do desafio também, pessoas que começaram na contracultura e acabaram sendo absorvidas pelo sistema. Com a Napster, por exemplo, com o John Parker também. Ele começou criando uma tecnologia ilegal e aí monetizou pelo Facebook. Às vezes você tem uma linha muito tênue entre a tradição e o novo. Até o Uber, que é meio ilegal em vários lugares e muitas das suas táticas parecem de máfias em termos de como constroem seu mercado.

"Esse questionamento de como sair do sistema tradicional e criar algo sustentável financeiramente é uma saída útil para que as pessoas possam lidar com a crise a curto prazo"

Como você encontrou essas histórias?

Diferentes formas. Foram três anos andando por aí, falando com as pessoas. Às vezes ir a um país e perguntar onde conseguir comprar drogas lá e ver se isso levava a uma conexão. Outras vezes, nos movimentos Occupy, por exemplo, havia alguns reis latinos, as pessoas de gangues das ruas, então colei neles. Mas é uma questão de estar acordado. Se você quiser achar algo, você sabe as ruas em que você tem que ir e começar a fazer perguntas.

Tem alguma história interessante aqui no Brasil?

Sim. Estou trabalhando em um novo livro e quero focar mais no Brasil. Fiz uma cobertura pequena pelo Brasil sobre open source e inovadores copycats, pessoas que são muito flexíveis com IPs, porque o Brasil tem uma regulamentação mais flexível em que as coisas que são sobre o bem público não podem ser patenteadas. Isso é interessante. E o espírito do “jeitinho”, esse tipo de coisa. Mas meu novo livro é sobre comunidades com modos de vida alternativos e, no Brasil, tem todos esses movimentos diferentes, essas vilas ecológicas que estão começando. Agora acabei de fazer um curso sobre essa ideia de neotribos, com um monte de gente do Brasil interessada em sair do sistema. Foi fascinante ver como as pessoas estão explorando essa área e como eles podem aprender com movimentos hackers e movimentos hippies do passado.

Como e por que os desajustados questionam o sistema capitalista?

Tem várias coisas sobre o capitalismo que não estão certas. Nós temos que evoluir. A desigualdade é uma dessas coisas. Acho que a forma como os negócios tradicionais são estruturados e o sistema de controle de hierarquia, sabe, as pessoas não gostam de viver nessas culturas. Elas se sentem patológicas. As pessoas ficam doentes, elas não se sentem elas mesmas, elas não estão inclusas. Então eu passei os últimos anos conversando com pessoas que estão tentando criar um tipo alternativo de sistema. Estamos em um momento de transição, então não é como se isso fosse o desenho de uma nova economia; são alguns métodos pra gente se virar enquanto estamos nesse momento de crise.

A economia dos desajustados confronta o capitalismo?

Tentamos ser equilibradas ao contar histórias, mas posso dizer que sou um pouco mais radical do que a média dos leitores do livro. Você vai ver pessoas no livro, por exemplo, que acreditam no capitalismo e estão tentando mudá-lo para permitir que ele evolua e seja mais equitativo, que aceite diferentes tipos de organizações. Mas tem pessoas no livro que não acreditam no capitalismo de jeito nenhum. Para mim, é muito importante criar empatia com esses diferentes tipos de atores. Às vezes pode ser o ativista que pode ajudar as pessoas de dentro do sistema a mudar porque estão colocando a pressão para os negócios prestarem atenção a uma questão. Pode ser o empreendedor que faz algo a respeito. Para mim, o desafio é colocar todas essas pessoas diferentes para dançar a mesma música para transformar as coisas. Mas eu diria que, bem, nós entrevistamos algumas pessoas que eram marxistas, algumas que eram totalmente contra o sistema, algumas mais tradicionais do tipo empreendedores do Vale do Silício, algumas que eram amish e nem ao menos acreditavam em empreendedorismo tradicional e sim em comunidades coletivas. Então, é um campo amplo. Mas as personalidades dessas pessoas, mesmo que tenham diferentes relações com o capitalismo, são as mesmas. Eles têm essa identidade rebelde.

Eles estão dando uma nova forma ao capitalismo?

Alguns acham que estão só maquiando o capitalismo, mudando sua cara, mas outros, ao criar moeda digital ou afirmar que não querem centralizar o sistema financeiro, não. Eu diria que os amish, na forma como eles se organizam, também; eles largaram o sistema econômico tradicional de muitas formas. Então sim: acho que eles estão, no mínimo, cutucando o capitalismo e fazendo com que ele evolua.

O Brasil enfrenta um momento de crise. Você acha que essa nova economia pode ser uma saída?

Acho que sim. Esse espírito de pressionar é importante. Acredito que, em momentos de crise, as pessoas ficam com medo e voltam a fazer o que estavam fazendo antes, ao tradicional. Mas, para ser sincera, quando fizemos o curso que eu falei na semana passada, todo mundo dizia que não consegue mais viver no antigo sistema. Todos brasileiros. Um cara ficou repetindo que não conseguia mais fazer as coisas desse jeito. Outra pessoa disse que toda a criatividade dela estava morrendo e ela não acreditava mais no governo. Então esse questionamento de como sair do sistema tradicional e criar algo sustentável financeiramente para viver de forma alternativa é uma saída útil para que as pessoas possam lidar com a crise a curto prazo.

O que é preciso para ser um desajustado?

Muita coragem e autenticidade. A habilidade de ouvir a si mesmo e não seguir o caminho tradicional, não ficar em um emprego só porque vai criar uma estabilidade na sua vida, mas se perguntar o que te torna único e como usar a paixão e os instintos para falar a verdade sobre o poder, não temer o desafio, as instituições e culturas existentes. São coisas que vários desajustados têm em comum. E eu acho que tem uma coisa incrível sobre aproveitar a oportunidade. São pessoas que não aceitam não como resposta, pessoas que conseguem navegar entre sistemas para usar o que eles precisam, sem entrar em um emprego que vai drenar a sua energia e a sua humanidade, e ser muito estratégico na hora de interagir com o sistema.