segunda-feira, 9 de maio de 2016

A convivencia entre negros e brancos no Brasil





O embraquecimento histórico do Egito Antigo

Parte III - última



 Figura 6: Filme: Êxodos: Deuses e Reis

Há quem diga com bastante cinismo que pensar num Antigo Egito Negro é ‘’tudo confusão com os núbios’’ -uma civilização negra também próxima ao Nilo.- ”não eram negros, mas brancos de pele morena. ”. Parece coisa do século XIX, mas não é. Um erro dessa natureza e magnitude não acontece por má fé ou ignorância, só a irresponsabilidade intelectual e o racismo explicam. Com o mito desse ‘’Egito Europeizado” criado e manipulado por Hollywood e dado como aceito durante anos, dificultou-se a desconstrução e a real representação dos povos egípcios.
  • Produções cinematográficas recentes e a perpetuação do embranquecimento egípcio:
Recentemente a discussão sobre o embranquecimento das produções hollywoodianas chamou a atenção da mídia especializada. Esse é um assunto que abrange desde a mudança de etnia de personagens, até o uso do chamado “blackface” – quando um ator branco passa por uma mudança estética para parecer de outra etnia. Desde a sua formação, Hollywood e demais produções mundiais vem usando desses mecanismos em seus filmes e projetos. E a partir disso, uma breve análise sobre essas recentes produções e o porquê de sua ilegitimidade e manutenção de falsas informações.


Figura 8 Filme: Deuses do Egito 

Além de usurpar e modificar a história egípcia, foi necessário embranquecer também os seus sujeitos. Nos filmes em Êxodo: Deuses e Reis, Os 10 Mandamentos e o mais recente Deuses do Egito, os personagens são majoritariamente brancos e com sua história nitidamente distorcida. As três produções citadas acima, tratam o Egito como uma localidade exterior à África (Apesar de estar naquele continente), mantendo uma plasticidade totalmente ultrapassada, com personagens que mantém estereótipos e velhos clichês totalmente machistas.

O que acontece em todas essas produções não é nenhuma novidade, o racismo não precisa inventar a roda. Os personagens masculinos retratando antigos egípcios como grandes guerreiros, quase sempre são blackfaces como é o caso do novo Ramsés de Ridley Scott em Êxodo: Deuses e Reis. O ator escalado para o papel é ninguém menos que Joel Edgerton que é loiro de olhos azuis. A solução foi reeditar a maquiagem usada pelo russo Yul Brynner em Os dez mandamentos (Americano), com muita cobertura de pele para sugerir o bronzeado de quem passa muito tempo tomando sol, jamais um tom de pele indiscutivelmente negro.

Também é esperado que o faraó seja amargurado e invejoso, jamais um grande estadista e estrategista. Contra o único deus possível, à imagem e semelhança de um homem branco, um líder negro se torna herege, um perdedor. Por outro lado, também é quase certeza que a educação egípcia de Moisés seja menosprezada, algo que está em completa oposição ao deus verdadeiro. As entidades egípcias e sua influência precisam ser destruídas, pelo menos em tese, para que apareça um novo deus em quem se pode acreditar.

Para Hollywood também é perfeitamente possível que a realeza egípcia seja branca, enquanto assassinos, ladrões e populares são negros, vide Êxodo: Deuses e Reis. O que está por trás dessa manobra é a ideia de que a nobreza egípcia não poderia ser africana mesmo que inexistam evidências de que a origem desses indivíduos, nobres ou plebeus, esteja fora da África. Aliás, ainda que se reconheça que nessa sociedade pessoas de diferentes tons de pele conviveram, não há registros de que houvesse qualquer segregação motivada pela cor da pele.

As antigas mulheres egípcias são todo um caso à parte, tanto no cinema e na televisão. Sempre muito brancas, de acordo com um padrão de beleza eurocêntrico, delicado como porcelana. No contexto de uma civilização do deserto, a sugestão sexista é a de que o território da mulher não a cidade e que seu papel político seja diminuído e resumido a intrigas motivadas pelo amor e pela paixão ao exemplo de Nefertari – Uma das maiores rainhas egípcias parece não ter nada mais a fazer do que sentir ciúmes de Moisés, como acontece com muitos personagens do “Dez Mandamentos.


Figura 7 Filme: ”Os 10 Mandamentos.”
Hollywood e suas vertentes, não mudaram sua concepção e não fizeram questão de perceber que o mundo a sua volta modificou e, que falhas não passarão desapercebidas ou sem algum tipo de problematização. O Egito Hollywoodiano está mais para mitologia Grega e as produções nacionais (Rede Record e associados) mais para o filme 300. Com total ausência de pesquisa séria, que retratem a verdadeira face do Egito Antigo.

Figura 9: Atriz Gina Torres, interpretando Cleópatra na série Xena

CONCLUSÃO
É importante empreender a revisão histórica e a desconstrução dessa imagem forjada midiaticamente pelo imperialismo branco, não só no que diz respeito ao Egito antigo mas a todas os povos africanos, orientais e sul americanos. A valorização acadêmica dos pensadores que se dedicaram a isso também é importante. Não podemos depender unicamente do esforço monumental de pensadores como Cheikh Anta Diop, é preciso que haja uma rede de pensadores que trabalhem essa desconstrução cotidianamente nas salas de aula, nas produções midiáticas e em suas pesquisas.

FONTES:
História geral da África, II: África antiga / editado por Gamal Mokhtar. – 2.ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010. 1008 p. DIOP, Cheikh Anta – Nations nègres et culture: De l’antiquité nègre égyptienne aux problèmes culturels de l’Afrique Noire d’aujourd’hui, 1954, Paris, Editions Présence Africaine,
Alunos: Pedro Alvarenga e Thayná Trindade