sábado, 30 de abril de 2016

África, terra dos meus pais, cale a boca desse mundo



O embraquecimento histórico do Egito Antigo

Parte II





A aceitação da hipótese da origem monogenética da humanidade leva Cheikh a investigar o estabelecimento das primeira comunidades humanas ao redor do vale do Nilo e seu desenvolvimento até a formação da sociedade egípcia.




 Figura 1 Um faraó da I dinastia egípcia. Segundo J. Pirenne, tratar-se-ia de Narmer, o primeiro faraó da História. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XVI.)

Após apresentar uma longa série de argumentos dos mais diversos autores que participaram do congresso Pan-Africano de Pré História, realizado em Adis Abeba em 1971, e outros tantos estudos de pesquisadores europeus e norte americanos, Cheikh conclui que o fundamental em todas elas é que, mesmo com discordância em algumas datações e na localização precisa do povoamento humano de certas épocas, o alto grau de convergência dos estudos prova que a base da população egípcia do período pré-dinástico era negra. Sendo falsas as teorias de que o elemento negro teria se infiltrado de modo tardio no Egito.

“os fatos provam que o elemento negro era preponderante do princípio ao fim da história egípcia, particularmente se observarmos, uma vez mais, que “mediterrânico” não é sinônimo de “branco”; estaria mais próximo da “raça morena ou mediterrânica” de Elliot­‑Smith. “Elliot­‑Smith classifica esses protoegípcios como um ramo do que ele chama raça morena, que corresponde à ‘raça mediterrânica ou euro­‑africana’ de Sergi . O termo “moreno” neste contexto refere­‑se à cor da pele e é simplesmente um eufemismo de negro. Assim, fica evidente que toda a população egípcia era negra, com exceção de uma infiltração de nômades brancos no período protodinástico.”

O elemento branco no genoma humano é tardio, mas existem varrições na pigmentação humana desse antes de seu surgimento. Ou seja, um negro com tom de pele mais claro não tem, necessariamente, componentes europeus no sangue. Assim, Cheikh defende a negritude genética do povo egípcio. Seus argumentos passam por análises e testes de dosagem de melanina feitos em algumas múmias nas quais foram encontrados tecidos de pele; medidas osteológicas; grupos sanguíneos e se estendem por mais de 200 páginas. Mas há ainda a questão da formação cultural.

Longe de uma ideia e purismo, o autor admite que a cultura egípcia se formou num caldeirão de influências até ser ela própria a maior influência cultural e política de toda a África.

“O clima relativamente úmido no final do Neolítico e durante todo o período pré-dinástico, que assistiu à formação da civilização no Egito, tornou o deserto árabe, entre o mar Vermelho e o vale do Nilo, permeável, por assim dizer. Foi por esse caminho, sem dúvida, que as influências mesopotâmicas cuja importância, aliás, talvez tenha sido superestimada – penetraram no Egito.”

Cheikh admite que, por falta de interesse, poucos estudos foram realizados para estudar os contatos do Egito com as culturas do Saara no período pré-dinástico (fim do neolítico). Mas que a inscrição de certos símbolos nas paletas protodinásticas permitem supor similaridades entre os povos do vale do Nilo e do deserto Líbio.

As partes mais interessantes dessa parte do livro são as seguintes que tratam das várias referências de autores da antiguidade clássica aos egípcios. Mostrando uma erudição rara, Cheikh, cita vários  autores da antiguidade em passagens referentes ao povo egípcio. Heródoto, Aristóteles, Sêneca, Luciano, Apolodoro, Ésquilo, Estrabão, Diodoro, Diógenes Lércio, Amiano Marcelino e outros. Todos eles se referindo ao povo egípcio como negro.

Das citações destacamos algumas mais pungentes:
“Aqueles que são muito negros são covardes, como, por exemplo, os egípcios e os etíopes. Mas os excessivamente brancos também são covardes, como podemos ver pelo exemplo das mulheres; a coloração da coragem está entre o negro e o branco”
Arítóteles, Fisionomia – Livro VI

“Egito conquistou o país dos homens de pés negros e chamou‑o Egito, a partir de seu próprio nome.”
Apolodoro, século I antes da Era Cristã, Livro II, A família de Ínacos.

“Os etíopes dizem que os egípcios são uma de suas colônias, que foi levada para o Egito por Osíris. Eles afirmam que, no começo do mundo, o Egito era apenas um mar, mas que o Nilo, transportando em suas enchentes grandes quantidades de limo da Etiópia, terminou por colmatá-lo e tornou-o parte do continente (…). Acrescentam que os egípcios receberam deles como de seus autores e ancestrais a maior parte de suas leis”
Diodoro, História Universal. Livro III
O autor cita ainda Homero para atestar a antiguidade e importância da civilização etíope.

 figura 2 Ramsés II e um Batutsi moderno. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XXXV.)



 Figura 3 A Esfinge, tal como foi encontrada pela primeira missão científica francesa no século XIX. Presume-se que esse perfil, tipicamente negroide, represente o faraó Khafre ou Quéfren (cerca de -2600, IV dinastia), construtor da segunda pirâmide de Guizé. O perfil não é nem helênico nem semita: é bantu. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XIX.)

No capítulo seguinte, Cheikh desenvolve um sofisticado estudo linguístico para analisar como o povo egípcio se referia a si mesmo no que tratava de raça e cor. Do qual destacamos a parte que se refere a palavra KMT.

Segundo Cheikh, os egípcios tinham apenas uma palavra para designar a si mesmos nos textos faraônicos: = KMT  que significaria “os negros”, um plural. O sentido da palavra é literal, vez que esse é o termo mais forte existente na língua faraônica para indicar a cor preta; assim, é escrito com um hieróglifo representando um pedaço de madeira com a ponta carbonizada.

Essa seria a origem etimológica da importante raiz kamit. Dela teria se derivado a raiz bíblica kam. O autor observa que na língua egípcia, o plural é indicado a partir da junção de um adjetivo ou de um substantivo ao feminino singular. Assim, KMT, do adjetivo = km = preto, significa precisamente “negros”, ou, pelo menos, “homens pretos”. A palavra é um coletivo que descrevia o conjunto do povo do Egito faraônico como um povo negro.



Figura 4 Representação proto­‑histórica de Tera­‑Neter, um nobre negro da raça dos Anu, primeiros habitantes do Egito. (Fonte: C. A. Diop. “Antériorité des Civilisations Nègres: Mythe ou Realité Historique?”. Paris, Présence Africaine, 1967. pr. XIV.)



Figura 5  Zoser, típico negro, faraó da III dinastia, inaugurou a grande era da arquitetura em pedra revestida: a pirâmide em degraus e o complexo funerário em Sacará. Em seu reinado, todas as características tecnológicas da civilização egípcia já estavam desenvolvidas. (Fonte: C. A. Diop. 1967. pr. XVII.)
CONTINUA